Planejamento técnico para o conforto térmico dentro de casa
Projetos construtivos devem considerar contexto local para lares mais agradáveis
As variações no clima são parte da rotina paulista. Em uma mesma semana, moradores do Estado passam de dias amenos com chuvas para períodos com máximas acima dos 30 °C. Diante de ondas de calor mais frequentes, a Engenharia Civil atua preventivamente em planos residenciais, incorporando medidas de conforto térmico e performance energética desde a concepção da edificação. Os projetos estrutural e arquitetônico devem considerar recursos como ventilação cruzada, que dissipa o ar quente sem gastar energia, e materiais isolantes. “Quando o imóvel é projetado com esses conceitos, o uso do ar-condicionado torna-se complementar e mais eficiente. Já uma construção sem esse planejamento dependerá de climatização constante para se manter habitável”, explica a engenheira civil Cristiana Lopes Vilarinho, coordenadora da Câmara Especializada de Engenharia Civil (CEEC) do Crea-SP. A orientação solar, o arejamento natural, a inércia térmica e o sombreamento também influenciam.
Brises, beirais, persianas e vegetação controlam a radiação sobre fachadas e superfícies envidraçadas. Segundo a física e pesquisadora Maria Akutsu, do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), não existe uma solução única. O Laboratório de Conforto Ambiental, Eficiência Energética e Instalações Prediais (LCAP/IPT) indica que o uso de isolantes é favorável em coberturas, enquanto a implantação inadequada nas paredes prejudica o comportamento da temperatura, especialmente em prédios de alta inércia térmica. A instalação de material atérmico sem orientação também pode provocar falhas. “A umidade pode condensar na superfície ou dentro das estruturas, provocando mofo, o que compromete a qualidade do ar interno e a saúde dos moradores”, alerta Cristiana. A pesquisadora lembra que a escolha e a aplicação dos materiais precisam considerar as condições de uso. Lãs minerais podem ter a performance prejudicada se expostas à chuva. A cobertura, por ser externa, também merece atenção por conta das mudanças de temperatura. “Como e onde eles são aplicados, considerando as características locais e de ocupação dos ambientes, é o que determina o desempenho”, esclarece. Conforto térmico As pesquisas contribuíram para o desenvolvimento de normas técnicas voltadas às diferentes regiões do país. A NBR 15220 divide o Brasil em zonas bioclimáticas, enquanto a NBR 15575 define critérios para a eficiência dos prédios. “Trabalhando em sintonia com a NBR 15575, o zoneamento fornece parâmetros para o desenvolvimento e a avaliação do desempenho térmico. A diretriz estabelece níveis mínimo, intermediário e superior”, comenta Roberto Lamberts, professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e supervisor do Laboratório de Eficiência Energética em Edificações (LabEEE). Lamberts ressalta que experiências internacionais precisam ser adaptadas às condições brasileiras. Em lugares quentes, a ventilação natural pode ser mais adequada. “A etiquetagem ainda é voluntária, mas a Resolução CGIEE nº 4, de setembro de 2025, propõe índices mínimos para novas edificações e um cronograma progressivo de implementação”, explica. A fiscalização do Crea-SP e a exigência da Anotação de Responsabilidade Técnica (ART) contribuem para que os projetos sejam executados por profissionais habilitados. “A orientação do Sol, ventilação natural, especificação dos materiais, isolamento térmico e demais estratégias devem ser especificadas pelo técnico responsável de acordo com as normas aplicáveis”, afirma Cristiana. Novas respostas
A busca atual nos estudos é por elementos que respondam às diferentes condições climáticas. Para Maria Akutsu, deve-se combinar isolamento, inércia térmica, controle da energia solar e ventilação. Entre os materiais pesquisados, estão os de mudança de fase, que podem aumentar a resistência às variações, e os vidros eletrocrômicos, que controlam a quantidade de radiação que atravessa sua superfície. Lamberts aponta a ventilação cruzada, o sombreamento de áreas transparentes e superfícies claras para reduzir o calor em regiões quentes.
Entre os erros frequentes estão o uso de cores escuras nas fachadas e a ausência de proteção nas aberturas. Apesar das normas estabelecidas, o mercado ainda adota predominantemente o nível mínimo de eficiência. Na avaliação do docente, o desafio também é considerar as mudanças climáticas ao longo da vida útil das construções, estimada em cerca de 50 anos, uma vez que as diretrizes utilizam referências do passado.
“Moradias com baixo desempenho térmico trazem riscos à saúde e demandam mais energia, que pode ser interrompida em uma onda de calor intensa e impedir o funcionamento de equipamentos de climatização. O bom funcionamento da medificação, mesmo sem condicionamento artificial, pode ser decisivo para a segurança dos moradores”, conclui Lamberts.
Fonte: Crea São Paulo – acesse ao site do Crea SP, https://www.creasp.org.br/







